aquilo que é inconcluso

“Agir é exilar-se. Toda a ação é incompleta e imperfeita. O poema que eu sonho não tem falhas senão quando tento realizá-lo […] E eu que digo isto — por que escrevo eu este livro? Porque o reconheço imperfeito. Sonhado seria a perfeição; escrito, imperfeiçoa-se.” (Fernando Pessoa em Livro do Desassossego) 

Eu sou extremamente indecisa. Talvez, esse sentimento venha da crença de que existe um jeito certo de fazer as coisas. Em adição ao fato de que também sou insegura, eu sempre parto do princípio de que o jeito que eu faço é o incorreto. Por causa disso eu abandonei diversos projetos na minha vida. 

A maioria das coisas que comecei nunca foram terminadas, e as que encontraram seu fim são julgadas e menosprezadas até hoje por não atingirem a perfeição esperada. Entretanto, eu penso que talvez abandonar projetos seja natural. Talvez, ter um ou dois projetos finalizados signifique que eu consigo terminar algo de fato. Talvez, eu não precise remoer e carregar o peso da desorganização ou da incompletude.

Por muito tempo ouvi falar que o Kafka foi um autor que deixou incompleta uma parte significativa de suas obras. O motivo, imagino, seja o perfeccionismo. Entretanto, isso não impediu de que ele se comunicasse intimamente com o leitor. Ele é um dos maiores autores clássicos, pelo amor de Deus! Suas obras incompletas são lidas até hoje, são analisadas, discutidas, aclamadas.

Obviamente, não sou o Kafka, mas isso me faz pensar sobre a cobrança que coloco em mim. Se não sou o Kafka, por que eu ainda me perturbo tanto com a ideia da imperfeição ou da incompletude? Por que isso importa? Os textos ou desenhos que chegaram até o fim tiveram seu propósito concluído e aqueles que permanecem em eterna pausa não possuem um valor inferior, eles tiveram o objetivo concluído de apenas existirem. São falhos, fragmentados e imperfeitos, mas existem. Isso por si deveria valer algo, não? 

2 comentários:

  1. É isso aí: que se dane se tem coisas incompletas. Leonardo da Vinci é outro gênio que experimentou com várias coisas e não necessariamente tudo criado foi finalizado ou teve a conclusão esperada.

    Eu tenho um pouco de problema com insegurança e decisões também, tanto que pesquiso 2834837482 vezes uma coisa para fazer do jeito certo (inclusive na maternidade). Corta pro meu marido que fez tudo do jeito dele e foi aprendendo sem clicar em um Reels do instagram e tendo resultados positivos kkkkkk

    Além disso iniciar coisas diferentes, mesmo sem propósito de conclusão, ajuda a gente a aprender e aplicar em outras partes da nossa vida. Sei que é mais fácil em palavras do que na prática, mas a mentalidade pra mim tem que ser: Se for feito imperfeito e concluído, ótimo. Dá pra continuar aperfeiçoando depois... Agora, se tiver sentindo que tá perdendo tempo, pula pra próxima e tá tudo bem <3

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    1. Meu namorado também é mais experimentador que eu!! Costumo fazer mil pesquisas de comparações, métodos diferentes, receitas diferentes, enquanto ele faz tudo sem nem mesmo pesquisar (e geralmente o resultado é melhor do que o meu kkkk)

      E você tem razão, às vezes a gente aprende mais experimentando do que tentando fazer tudo perfeito desde o início!! Vou levar mais essa mentalidade de ter algo feito imperfeito e mas concluído 💚

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