vestígio

No café, alguém entra apressado limpando os pés no capacho. Suas roupas estão encharcadas e as gotas caem no azulejo. Ele se senta próximo a janela embaçada pelo mormaço.

No exterior, um homem irritado tenta ler a coluna política, mas a tinta havia borrado e acabou virando somente um borrão.

Na calçada, uma mãe segura a mão de sua criança um pouco mais forte enquanto ela pula nas poças de água na calçada se divertindo ao ver a água dando piruetas no ar.

Na praça, os pássaros saem de seus esconderijos. O impulso de seus corpinhos rechonchudos faz com que os galhos se agitem, derramando água sobre um cachorro que dormia logo abaixo. Ele chacoalha, espirrando pequenas gotinhas sobre a grama já molhada.

Na rua, alguém espera o semáforo ficar verde, mas se distrai com o vermelho e amarelo refletidos no asfalto. Uma memória há muito tempo escondida de seu primeiro natal surge enquanto os pedestres o empurram ao tentar passar apressados. Quando o sinal fecha novamente, a lembrança desaparece.

Esse texto faz parte de uma atividade de escrita criativa cujo objetivo era descrever a chuva sem usar essa palavra. Ficou guardado desde o ano passado nos meus rascunhos e achei que seria uma ótima ideia usar como primeiro post do BEDA

Bisous  

Aramiri: uma dríade barda para o BEDA

Há muito tempo eu planejei voltar a ser ativa na blogosfera mas nunca tive o impulso para tal. Até que recentemente, acompanhando os blogs que eu sigo como uma fantasma, notei que todos estavam participando de um projeto super divertido do Entreblogs, o BEDA (Blog Everyday in August/April) e foi então que aquele impulso que eu esperava apareceu. A ideia de criar uma personagem de rpg e o desafio de postar no blog pelo menos uma vez na semana me fizeram querer voltar a postar. 

Minha personagem

Classe: Bardo (poesia, escrita criativa, música e cultura)
Jornada: Jornada do patrulheiro. (Formato BEWA, postar pelo menos uma aventura por semana)
Descrição: Aramiri é uma dríade de um îpe branco. Nasceu em uma floresta antiga, longe do îpe que lhe deu origem. Sua semente foi carregada no bico de um pássaro por longos caminhos e, depois, foi levada pelo vento até uma clareira onde pôde crescer suas raízes. Ela sempre carrega consigo uma lira e um caderno. Em suas caminhadas contemplativas pela floresta, ela escreve seus pensamentos em forma de poemas, textos e desenhos. 

Por enquanto é isso! Caso você tenha interesse de participar dessa jornada ou caso queira descobrir outros aventureiros é só acessar esse link

aquilo que é inconcluso

“Agir é exilar-se. Toda a ação é incompleta e imperfeita. O poema que eu sonho não tem falhas senão quando tento realizá-lo […] E eu que digo isto — por que escrevo eu este livro? Porque o reconheço imperfeito. Sonhado seria a perfeição; escrito, imperfeiçoa-se.” (Fernando Pessoa em Livro do Desassossego) 

Eu sou extremamente indecisa. Talvez, esse sentimento venha da crença de que existe um jeito certo de fazer as coisas. Em adição ao fato de que também sou insegura, eu sempre parto do princípio de que o jeito que eu faço é o incorreto. Por causa disso eu abandonei diversos projetos na minha vida. 

A maioria das coisas que comecei nunca foram terminadas, e as que encontraram seu fim são julgadas e menosprezadas até hoje por não atingirem a perfeição esperada. Entretanto, eu penso que talvez abandonar projetos seja natural. Talvez, ter um ou dois projetos finalizados signifique que eu consigo terminar algo de fato. Talvez, eu não precise remoer e carregar o peso da desorganização ou da incompletude.

Por muito tempo ouvi falar que o Kafka foi um autor que deixou incompleta uma parte significativa de suas obras. O motivo, imagino, seja o perfeccionismo. Entretanto, isso não impediu de que ele se comunicasse intimamente com o leitor. Ele é um dos maiores autores clássicos, pelo amor de Deus! Suas obras incompletas são lidas até hoje, são analisadas, discutidas, aclamadas.

Obviamente, não sou o Kafka, mas isso me faz pensar sobre a cobrança que coloco em mim. Se não sou o Kafka, por que eu ainda me perturbo tanto com a ideia da imperfeição ou da incompletude? Por que isso importa? Os textos ou desenhos que chegaram até o fim tiveram seu propósito concluído e aqueles que permanecem em eterna pausa não possuem um valor inferior, eles tiveram o objetivo concluído de apenas existirem. São falhos, fragmentados e imperfeitos, mas existem. Isso por si deveria valer algo, não?